Nota 100 não quer dizer acessível

O Lighthouse dá 100 de acessibilidade para as páginas do blog do gusta.click. Eu gosto do número, e ele não prova que o site é acessível. Quem diz isso é o próprio relatório, logo abaixo da nota: a detecção automática só encontra uma parte dos problemas.

Acessibilidade em site é obrigação legal no Brasil, para governo e para empresa. Este texto junta o que a lei pede, qual norma seguir, seis testes que qualquer empresa consegue fazer sem contratar ninguém e onde a ferramenta automática para.

O que a lei diz

A Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, trata de sites no artigo 63:

Art. 63. É obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no País ou por órgãos de governo, para uso da pessoa com deficiência, garantindo-lhe acesso às informações disponíveis, conforme as melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente.

Dois detalhes passam batido. A obrigação vale para empresa, não só para órgão público. E o parágrafo primeiro do mesmo artigo pede uma coisa bem concreta:

§ 1º Os sítios devem conter símbolo de acessibilidade em destaque.

Para o governo federal existe uma camada a mais. O eMAG, Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico, está na versão 3.1, e a Portaria nº 3, de 7 de maio de 2007, tornou o modelo obrigatório nos sites e portais do governo. Quem responde a edital de órgão público precisa conhecer esse documento antes de mandar o preço.

Qual norma seguir

A lei fala em "melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente". Na prática, isso aponta para a WCAG, do W3C. A versão 2.2 virou recomendação em 5 de outubro de 2023 e tem 86 critérios de sucesso em três níveis:

Nível Critérios Na prática
A 31 O mínimo. Sem ele, parte das pessoas não consegue usar o site
AA 24 O alvo mais comum em normas e contratos
AAA 31 Para casos específicos. Raramente se exige do site inteiro

O Brasil ganhou norma própria em 2025. A ABNT NBR 17225, com primeira edição de 11 de março de 2025, traz requisitos de acessibilidade para conteúdo e aplicações web.

Um contrato não precisa citar as três. Precisa citar uma, com o nível, e dizer como vai ser conferida.

Seis testes que dá para fazer hoje

Nenhum deles pede ferramenta paga. Meia hora no site da empresa já mostra bastante coisa.

Lista com seis testes de acessibilidade que qualquer empresa consegue fazer: só com o teclado, contraste, imagens, formulários, zoom de 200% e leitor de tela
Os seis testes. O primeiro é o que mais revela, e leva dois minutos.

1. Só com o teclado. Largue o mouse. Tab avança, Shift+Tab volta, Enter ativa. Dá para chegar no menu, nos botões e no formulário? Dá para ver onde você está?

Página do blog do gusta.click navegada pelo teclado, com o item Nola AI do menu destacado por um contorno verde que mostra onde está o foco
Navegação por teclado no gusta.click. O contorno verde mostra onde o foco está.

2. Contraste. Texto normal precisa de pelo menos 4,5:1 contra o fundo. Texto grande, 3:1. O inspetor do navegador mostra essa taxa quando você clica na cor do texto.

3. Imagens. Toda imagem que traz informação precisa de texto alternativo dizendo o que ela mostra. "Imagem 1" ou o nome do arquivo não servem.

4. Formulários. Cada campo tem rótulo, e a mensagem de erro diz o que corrigir. "Campo inválido" em vermelho, sem dizer qual, reprova.

5. Zoom de 200%. Aumente o zoom do navegador. O texto tem que continuar legível, sem rolagem lateral e sem botão sumindo.

6. Leitor de tela. VoiceOver no Mac e no iPhone, NVDA no Windows, TalkBack no Android. Feche os olhos e tente chegar até o contato. É o teste mais desconfortável, e o que mais ensina.

Dois erros nossos, com números

Em setembro, o Lighthouse passou a dar 96 de acessibilidade em todos os posts deste blog. Eram dois textos pequenos.

Dois ajustes de contraste no gusta.click: a assinatura do widget de atendimento foi de 1,96:1 para 5,05:1 e um rótulo roxo em fundo escuro foi de 3,8:1 para 5,7:1
Antes e depois dos dois ajustes. O mínimo para texto normal é 4,5:1.

A assinatura do widget de atendimento, cinza claro sobre branco, tinha contraste de 1,96:1. Um rótulo roxo sobre fundo escuro tinha 3,8:1. Os dois abaixo do mínimo.

A correção foi trocar duas cores. A assinatura foi para 5,05:1 e o rótulo para 5,7:1. Levou minutos. O que demorou foi alguém perceber, porque ninguém tinha reclamado. Esse é o problema de fundo: quem não consegue ler um texto raramente avisa. Só vai embora.

Onde a ferramenta automática para

Relatório do Lighthouse de uma página do gusta.click com nota 100 em acessibilidade e, logo abaixo, uma lista de dez itens para verificação manual
Nota 100 e, logo abaixo, dez itens que o Lighthouse não consegue conferir sozinho.

O relatório acima é de uma página do gusta.click. Nota 100, com 27 verificações aprovadas. Embaixo, o próprio Lighthouse lista 10 itens que ele não consegue checar e pede verificação manual. Entre eles estão a ordem do foco, foco preso em alguma região da página e conteúdo escondido que o leitor de tela continua lendo.

A Deque, empresa que mantém o motor de testes usado pelo Lighthouse, analisou auditorias reais e encontrou que 57,38% dos problemas foram identificados por teste automático. Sobra mais de 40% para gente.

Na prática, a rotina que funciona tem três camadas. Ferramenta automática todo mês, porque pega regressão barato. Teste manual a cada mudança grande de layout. E, quando o contrato exige conformidade, avaliação com pessoas com deficiência usando o site.

O que escrever em contrato ou edital

Quatro linhas resolvem a maior parte das discussões:

  1. Norma e nível. Por exemplo, WCAG 2.2 nível AA. Para governo federal, eMAG.
  2. Como será conferido. Relatório automático mensal e teste manual em quais páginas.
  3. Prazo de correção. Quantos dias para corrigir o que aparecer.
  4. Quem responde pelo conteúdo novo. Imagem sem descrição publicada pela equipe da empresa também reprova.

Esses itens cabem no contrato de hospedagem e manutenção de site, junto com backup e atualização. Em site novo, a acessibilidade entra no design, como mostra o guia de criação de site para empresa. E vale conferir se ela está no preço, porque é um dos três itens que mais ficam de fora, como explico em quanto custa criar um site. Se o site vai mudar de plataforma, a troca é a melhor hora para corrigir tudo de uma vez, e o roteiro está em migração de site sem perder SEO.

Perguntas frequentes

Acessibilidade em site é obrigatória para empresa privada?

É. O artigo 63 da Lei Brasileira de Inclusão fala em sites mantidos por empresas com sede ou representação comercial no país, além de órgãos de governo.

Nota 100 no Lighthouse significa que o site é acessível?

Não. Significa que a página passou nas verificações automáticas. O próprio relatório lista itens que precisam de teste manual.

Qual nível da WCAG devo exigir?

O nível AA é o alvo mais comum em normas e contratos. O AAA costuma ser aplicado a casos específicos, não ao site inteiro.

Plugin ou widget de acessibilidade resolve?

Sozinho, não. Esses recursos ajudam em ajustes de exibição, mas não corrigem imagem sem descrição, formulário sem rótulo nem navegação por teclado quebrada.

O que é a NBR 17225?

É a norma da ABNT com requisitos de acessibilidade para conteúdo e aplicações web. A primeira edição é de 11 de março de 2025.

Fontes

Leis, normas e dados consultados em 7 de outubro de 2026: Lei 13.146/2015, WCAG 2.2, ABNT NBR 17225, eMAG e relatório da Deque.

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Quer saber como o site da sua empresa se sai nos seis testes? Fale com a GUSTA. A gente faz a avaliação, mostra o que a ferramenta automática não pegou e entrega a lista de correções por prioridade.